sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Crônica de um jogo que não houve

Na semana do aniversário do gênio Romário, meu artigo seria dedicado aos 40 anos recém-completados de uma peça fundamental para o sucesso da seleção de 94. Mauro Silva, o jogador de menos categoria no pior meio-campo campeão do mundo que este país já produziu, é um exemplo de como deve ser entendido o futebol moderno, que pode prescindir até mesmo do futebol em nome do resultado. Vocês devem se lembrar quem dos dois citados esteve mais perto de balançar as redes italianas... Aos tetra-campeões aniversariantes, meus parabéns.

De última hora, no entanto, recebi um e-mail comovente de um amigo de longa data, o Diogo Menezes, barman existencialista e filósofo habilidoso, que publico na íntegra, mais pela pertinência e atualidade do tema “taça das bolinhas” e por apreço a seu relato pessoal do que por concordar com ele. Curiosa é a presença insistente de Mauro Silva nos textos, nos marcando de perto...



“Caro Tiago,

Seu e-mail provocador a respeito do Corinthians x Guarani da última quinta me lembrou outros tempos, em que tanto eu como você tínhamos motivos para sorrir, em vez de nos provocar mútua e pateticamente desde as divisões inferiores do decadente futebol brasileiro.

Lembrei daquelas finais do Paulistão de 88, do gol inesquecível do Neto e do surgimento do Viola, que apareceu dando o título a vocês. De lembrança em lembrança, eu acabei lembrando dos 20 anos de uma data que aparentemente passou desapercebida para todo mundo, menos para mim. O dia 24 de janeiro de 1988. Eu, com meus 10 anos, era sócio e um entusiasmado torcedor do forte Guarani, que já não tinha Careca, mas tinha Evair, além de Giba, Ricardo Rocha, Boiadeiro, João Paulo, o jovem Mauro Silva no banco e voltaria a ter Neto, pouco tempo depois.

Apesar da decepção com a roubalheira da final de 86 (disputada em 87), acompanhei o Bugre por todo o ano de 1987, no Paulista, na Libertadores (em que, de certa maneira, nos vingamos, vencendo o São Paulo aqui e empatando no Morumbi) e, enfim, no Brasileiro. Meu pai era fanático e íamos a rigorosamente todo jogo no Brinco.

Eu, porém, sabia que não existia apenas o Guarani e, já como hoje, era um admirador do futebol. Quando os compromissos com meu time permitiam, assistia na TV aos jogos dos outros. Era impossível não se entusiasmar com o time de Renato Gaúcho, Bebeto, Jorginho e, ele, Zico. Ele, que desperdiçara o pênalti do jogo na Copa anterior, e voltara a desfilar sua classe pelos gramados brasileiros.

Quando, ainda no início de dezembro, o juiz apitou o fim do de Guarani 1x0 Atlético Paranaense, depois de mais de 80 minutos de sofrimento, eu explodi de alegria e torci muito para que o Flamengo entrasse no quadrangular. Classificados Flamengo e Inter no módulo Amarelo, sempre com a cabeça no quadrangular, acompanhei na TV a histórica disputa de pênaltis com o Sport (11x11!!!) e esfreguei minhas mãos em júbilo esperando o dia em que meu Guarani mediria forças com o Flamengo de Zico, que no mesmo momento despachava o Inter, sagrando-se campeão do Módulo Amarelo.

No dia seguinte (eu não falava em outra coisa), meu pai, preocupado, veio contar-me que o Flamengo e o Internacional haviam abandonado a disputa e o Flamengo já se considerava campeão brasileiro e quadrangular seria reduzido a um jogo de ida e outro de volta com o Sport. “Como pode haver um campeão sem ter enfrentado o time mais forte?” – pensava eu. Era a segunda final que nos roubavam – e desta vez nem nos deixaram jogar! Fiquei com raiva do futebol e virei o ano pensando em outras coisas. Passadas poucas semanas, já era um torcedor de novo, jogava minha bola e freqüentava meu clube do coração.

No domigo 24 de janeiro de 1988, lembro de acordar cedo com a idéia fixa de ver o jogo com o Flamengo. No fim da manhã, toda a família foi para o clube. Perto das 17h, enquanto todos estavam na beira da piscina, já bem cansados, fui sozinho até o estádio tristemente vazio, fechei os olhos, ouvi a torcida bugrina cantar forte e vi o Guarani enfiar 2 a 0, um de João Paulo e outro de Evair, no covarde time do Flamengo. Zico, além de perder um pênalti, teve atuação apagada graças à boa marcação de Tosim. E o quadrangular final continuou em aberto. Fui embora com o gosto da vitória e deixando naquele estádio uma parte de minha infância. Até fui nos jogos posteriores em que perdemos o título para os recifenses. Mas, na verdade, para mim, não há 2 campeões de 1987, nem um. Para mim, aquele campeonato não acabou.


Grande abraço,

Diogo”

5 comentários:

Chico disse...

Comovente, os bugrinos de todo o Brasil irão chorar ao ler este depoimento do Menezes.

corintiana roxa disse...

Muito touching. Gosto estilo crônica
Por falar nisso, Chico Garcia bem que podia tecer uma crônica sobre o hino de guerra da torcida corintiana. Ele, com seu jeito poético irônico, poderia tirar dali uma crônica e tanto...
Fica a sugestão...

corintiana preta disse...

Em tempo...
É o grito de guerra que andam cantando nos jogos e não o HHHIIINNOOO do Corinthians.

Careca disse...

bugre roubado!!!!!

vergonha nacional o penta rubro-negro

Anônimo disse...

Caberia ainda mais um comentário acerca da talvez última grande contribuição bugrina para o futebol mundial. Não, não se trata de Djalminha, muito menos de Amoroso ou Luizão...
O que o comentário ao post não revela é que Mauro Silva nunca jogou de fato pelo Guarani de Campinas.
Relembrando agora, vejo que foi exatamente no fim de 1987 que surgiu pelas bandas de Bragança Paulista - "a capital do Sul de Minas", "a terra da lingüiça" - um zagueirão grosso e estiloso de nome Vítor Hugo.
Dono de admirável capacidade de entregar o ouro para o adversário, logo despertou ferrenha disputa entre os "scratches" campineiros...vá entender?
O caso é que o glorioso Alvinegro da Pedras, o Leão das Alterosas, o mais temido do interior, enfim cedeu ao negócio irrecusável proposto pelo Bugre: era o Vítor Hugo por 5, mais a grana do busão.
Estava montado o esquadrão mais forte do início dos anos 1990...do time campeão paulista e brasileiro vão em maiúsculas os que foram envolvidos na troca: Marcelo, GIL BAIANO, NEI, JÚNIOR e JOÃO BATISTA; MAURO SILVA, Ivair e João Santos; Mazinho, Mário e Tiba.
Detalhe que dessa defesa, que garantiu ao baixinho e frangueiro goleiro Marcelo o bi-campeonato da Bola de Prata, só mesmo o limitado J.B., depois substituído pelo Biro-Biro (o "nosso"), é que não foi convocado para a seleção...enfim, valeu Bugre, isso é que é visão!!!
Abraços!
MASSA BRUTA: O MAIOR DO INTERIOR...e dá-lhe Braga!!