sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A boemia é uma caixinha de surpresas


Certa madrugada, perambulava eu, àquela altura já sozinho e bastante alccolizado, pelas ruas paulistanas, rumo a minha casa. Para quem gosta do esporte, sabe que é preciso fazer uma escala volta e meia, para reabastecer. Uma porta me pareceu convidativa e, após tropeçar num cachorro que quase me mordeu, vi-me num legítimo pub, penumbroso e enfumaçado. Sentei-me ao balcão, pedi um pint de cerveja e saquei do bolso um cigarro. Procurava um isqueiro nos bolsos, quando uma chama apareceu à minha frente. Sem me importar com sua origem, encostei a ponta do cigarro nela, traguei, tirei o cigarro da boca e me virei para agradecer. A figura ao meu lado surpreendeu-me. Um senhor aparentando seus 70 anos, um pouco menor que meu metro e sessenta, barbas brancas desgrenhadas, rosto vermelho, metido num paletó surrado, ostentava um sorriso embriagado que revelava dentes mal cuidados e um olhar ainda mais simpático do que seu gesto de oferecer a chama de seu isqueiro de ouro.

O velhote estendeu sua mão enrugada para mim e pronunciou seu nome, Labraid Beadan, que demorei alguns minutos para entender e umas 5 repetições ao longo das horas para fixar. Mais tarde, contaria seu significado: “Falador Pequeno”, o que, depois de meia hora de quase monólogo, não seria difícil entender. Contou-me ser de Dublin e ter chegado a São Paulo em plena greve da Light, após ter vindo a Santos clandestino em um navio. Perguntei se viera fugindo da guerra de independência e ele, com um sorriso a princípio constrangido e em seguida muito brejeiro, contou que após visitar uma adega com amigos em Cork, acordou no porão de um navio, com uma ressaca de matar. Revelou ainda que um marinheiro afirmou ter tirado ele de dentro de um barril de irish cream, que misteriosamente estava seco. Recusou-se a dizer sua idade.

Começamos conversando sobre literatura irlandesa e eu, que não sou grande conhecedor dela, me impressionava com a intimidade com que Beadan tratava monstros sagrados da literatura (Jimbo Joyce, Sammy Beckett,...). Com a maestria de um professor e a intimidade de um grande mentiroso, destrinchava livros altamente complexos com frases simples e relatos pessoais (“Esse O'Connor, de Dublinenses, foi inspirado num sujeito que vivia bêbado e pagando de agitador político...”). Ao menor sinal de puxa-saquismo de minha parte, como perguntar como uma ilha de 4 milhões de habitantes tinha tantos grandes escritores, desdenhava de mim e de seu país, numa auto-ironia que deixava transparecer grande amor à terra natal. Contei-lhe que tinha bebido todo o meu dinheiro e respondeu que não me preocupase com isso. Tirou uma enorme moeda de prata da pequena bolsa que trazia e pediu mais duas, gesto que repetiria muitas e muitas vezes, para meu espanto, que não via de onde poderiam sair tantas moedas.

Perguntei-lhe se mantinha contato com a Irlanda e ele surpreendeu-me ao dizer que a cada poucos anos viaja para lá, além de acompanhar pela internet o desempenho de seu time. Quis saber que time era e ele, me olhando como se eu tivesse perguntado se ele era homem ou mulher, respondeu, “O Bohemian, ora”. Naquele momento notei que o futebol irlandês era uma incógnita, ao contrário de sua brava seleção. Meus olhos blogueiros se animaram e pedi-lhe que me contasse sobre o time e o futebol irlandês enquanto meus olhos boêmios se animaram com o nome do time e pedi mais uma cerveja ao garçom.

O Bohemian Football Club, disse-me Beadan, é o primeiro time de futebol da Irlanda, fundado em 6 de setembro de 1890 no Phoenix Park, noroeste de Dublin, por funcionários públicos, estudantes de medicina, notórios paus-d’água e um gato. Na reunião de fundação, num pub cujo nome não lembrava (“Freqüentávamos tantos” – justificou), houve polêmica sobre o nome: os funcionários públicos e estudantes queriam chamar o time de Rovers, mas a maioria, incluindo o presidente Dudley Hussey, que deu seu voto de minerva, apoiou a proposta de Frank Whitaker (pé-de-cana que depois se regenerou e ingressou na Ordem de São João de Deus) de chamá-lo Bohemian, por causa da constante deambulação dos componentes da equipe à procura de bares abertos e campos onde pudessem jogar bola.

O símbolo – mostrou-me Beadan, orgulhoso, em sua carteirinha – são os tradicionais 3 castelos que representam o zelo dos cidadão na defesa de Dublin. As cores, desde 1893, vermelho e preto. Até 1901, o clube mudou-se algumas vezes, o que lhe rendeu o apelido de The Gypsies, Os Ciganos. No verão desse ano (verão irlandês, bem entendido), o grande boêmio William John Sanderson, após noite animada num cabaré, acordou ao relento com um gato – o mesmo que fundou o time – lambendo-lhe a face num enorme descampado perto da linha do trem. Após praguejar, jurar que nunca mais voltaria a beber, levantar e dar alguns passos cambaleantes tentando entender onde estava, resolveu ir a um pub onde certamente encontraria alguns amigos de time e comunicou-lhes haver encontrado o lugar perfeito para a casa dos Bohemian. Após um brinde e algumas saideiras, foram todos para o descampado, seguindo o gato, porque Sanderson não lembrava o caminho. Ali, em setembro, nasceria o Dalymount Park. Em 1921, em decorrência da secessão entre as Irlandas, a IFA (Ireland Football Association) virou a associação de futebol do Norte e foi criada a FAI (Football Association of Ireland). Dalymount Park era o melhor campo da república e tornou-se a casa da seleção nacional até os anos 70, quando a FAI resolveu sediar os jogos num estádio de rúgbi, com maior capacidade (Lansdowne Road). Nesse enorme meio tempo, após anos de fartura, lá pelos anos 60 os Bohs enfrentaram uma enorme crise financeira por causa dos custos de iluminação do estádio. Para tentar sair do vermelho, iniciou-se em 1969, o processo de profissionalização da equipe. Nos anos 70, o time reencontrou o caminho dos títulos e depois encarou novo jejum nos anos 80 e 90 (exceto por uma Copa FAI). Beadan afirmou que ganhar ou não títulos era o de menos, que o que valia era o espírito boêmio. Perguntei-lhe o que restava desse espírito e ele, para minha surpresa, afirmou que o gato, por exemplo, conhecido como Dalymount Cat, segue acompanhando os jogos no estádio. Além disso, citou um amigo em Dublin, cujo bar, destruído por hooligans, foi reconstruído após uma vaquinha dos torcedores. Revelou ter tentado intermediar a ida de Sócrates para o clube, quando ainda estudava medicina, mas preferiu não entrar em detalhes – observando apenas, ambiguamente, que as negociações foram um porre.

Perguntei-lhe sobre a torcida. Contou-me ainda que, além de beber, os Bohs gostam de bom futebol e enchem o saco do time quando está jogando mal. Insisti para saber se havia alguma tendência política ou religiosa predominante e, pela única vez na noite, Beadan se irritou, afirmando que a divisão de seu país em dois passava ao mundo essa impressão de que tudo o que existe lá é uma eterna disputa entre católicos e protestantes. Ainda alterado, afirmou que os torcedores apenas escolhem os times que lhes parecem mais simpáticos, que tinha ódio da imagem hollywoodiana de irlandeses brigões e bêbados. Pediu outra e se acalmou. Defendeu ainda que a divisão entre norte e sul, afora toda a questão político-religiosa, se deve ao interesse inglês em não tomar mais cacetes no futebol, pois se, por exemplo, George Best fosse simplesmente irlandês e não norte-irlandês, o futebol de seu país seria muito superior ao da Inglaterra.

A essa altura, Labraid perguntou para que time eu torcia e comentou, sarcástico, que os Gypsies nunca foram rebaixados. Disse ainda que a situação atual do clube é animadora, que um novo estádio está sendo erguido e o clube se orgulha de ser propriedade integral de seus sócios, bastando, para se associar, a indicação de 2 outros sócios e aprovação na assembléia geral. Previu que em breve, com o ciclo virtuoso na economia irlandesa, alguns jogadores brasileiros poderiam vestir a camisa rubro-negra, após a saída do grande ex-vascaíno André Borges (comentário meu: quem???).

De repente, levantou-se e disse que precisava ir. Convidou-me para ir a Dailymount Park enquanto é tempo, foi até a porta, virou para trás e me chamou com um gesto. Fui até lá e ele me disse que eu podia ficar tranqüilo quanto a toda a minha bebida. Antes que eu tivesse tempo de dizer “ã?”, virou-se de novo, montou no cachorro que continuava à porta e partiu de vez, deixando para trás outro boêmio.

6 comentários:

gargalo de quintinho disse...

esse é um beberrão....

viva o dia de são patrício!!

Niall Clarke disse...

esta excelente! Bohs!

Fernanda Copatti disse...

Sério, já pensaste em mandar esses textos para a revista Piauí?? Eles se enquadram perfeitamente ao perfil dos textos publicados. Pensa nisso!!! Entraste no meu Blog? Beijos da tua amiga, que mora ao sul do teu coração..
Fê!

Zé Pedro disse...

Graaaaaaaaaaande Cobi Jones leprechaun, pourin' it down like a bloody pint! Valeu a espera!

Dunb Düblan disse...

enfim um lugar aonde o futebol é muito melhor do que esse corre-corre de cartolas e a cerveja muito mais gelada, pois não é preciso pagá-la. anotou a placa do cachorrinho?

Timmy O'Shenanigans disse...

'Tis been two years now, and it's still a great post" Hurray, fella!