quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Os Segredos da Obamaravilha

* Por Chico Garcia


Amigos, amigas, democratas, blogueiros e leitores, eu irei vos contar como quase me tornei um republicano do alto escalão.

Bar do Seu Zé. São Paulo, Brazil - September 30th.
21:13am local time

Tudo começou quando estava no boteco com meu amigo Tiago Marconi (em papo de campanha política baiano é autoridade) e confessei nunca ter tido tanto a sensação de que o marketing tinha adquirido uma sobre importância perigosa, na política e no futebol.
Não pude deixar de lado, em meus comentários, a campanha do senhor Geraldo e a camisa roxa do Corinthians, mas eu sabia que a galinha dos ovos de ouro estava mesmo é lá pelas bandas de Chicago. Era o fenômeno do senhor Barack, atraindo mais gente do que jogo do Flamengo, que me despertava atenção.

Comecei a suspeitar de que algo estranho pairava sobre a cúpula democrata. Para mim, a grande questão por trás da cortina da mídia sempre foi apenas uma: Quem era o real marqueteiro de Barack Obama? Aqueles liberais ecologistas do partido eram incapazes de tal feito, fantoches na mão de um gênio meticuloso que eu desconhecia. A partir daí as coisas começaram a esquentar...



Home. São Paulo, Brazil - October 1st.
08:45am local time

Fui investigar minhas suspeitas à primeira luz da manhã. Adquiri inúmeros folhetos democratas pela internet e colei-os abaixo de uma silhueta negra, com um grande ponto de interrogação em cima. Quem, afinal, poderia elucubrar tantas frases de efeito? Quem poderia tocar o povo com mensagens publicitárias tão bem planejadas? Quem teria essa capacidade sem sequer levantar as suspeitas republicanas?

Após horas de reflexão, estava certo de que já havia ouvido frases bem parecidas em algum lugar. E foi em um comício democrata pelo youtube que descobri a verdade. Atrás da cortina, longe do centro do palco, uma figura misteriosa parecia sussurrar frases que em seguida eram colocadas à mesa de Obama.

E o mais intrigante: seus pés raramente tocavam o chão. Pareciam levitar, voar como um beija-flor. Quem, afinal, além de bolar frases tão impactantes, era capaz de parar no ar dessa forma? O marqueteiro de Barack Obama era Dadá Maravilha!

O beija-flor, gênio da grande área e da propaganda, o maior frasista da história do futebol. Dario conhecia bem o povo - conquistou com seu marketing nada menos do que as torcidas de Flamengo, Inter e Atlético - e agora ajudava por algum motivo o partido democrata.

McCain não tinha a mínima chance. Apenas a minha ajuda poderia salvar sua campanha. E então tive uma idéia brilhante, botada em prática três dias depois. Secretamente, ajudaria a desmascarar a farsa da “obamaravilha”, me aproximaria do senador McCain e, se ele fosse eleito, teria influência política para tentar convencê-lo a participar da maior e mais crucial de todas as parcerias bilaterais da história das Américas (depois do fracasso da ALCA), a construção do estádio da Fiel, em Miami.


Telefonista me ligue com o Quartel General Republicano, urgente! Ninguém atendeu. Revirei então minha agenda até encontrar o que procurava. Tinha em mãos o messenger de Angélica Bush, sobrinha distante de George, que recentemente fez intercâmbio na FFLCH. Claro que ela se zangou por eu nunca ter ligado de volta, mas logo me perdoou, quando comentei que ela parecia magra. Meu nível de acesso estava garantido e a equivocada estratégia de McCain havia de ganhar um fôlego extra.

Withe House. Washington D.C - October 7th.
16:08h local time

Poucos dias depois me vi sendo paparicado pela equipe republicana da Casa Branca, ainda que meu sobrenome hispânico causasse certa resistência. Comecei mostrando tudo que sei sobre o conceito de estratégia. Depois, expliquei que os milhões de dólares gastos na Google Operation, que consistia em procurar no Google terroristas com o sobrenome “Obama”, estavam esvaziando os cofres da campanha sem sucesso algum. Era um brasileiro, ex-jogador e falastrão, o marqueteiro secreto dos democratas.

Conheci McCain logo em seguida. E provei por a mais bê que as frases do Dadá eram o trunfo da campanha democrata. Contei que, no Brasil, o atacante já teve tantos adeptos que chegou fundar uma religião, o dadaísmo. Obama era a camuflagem democrata perfeita em torno do fenômeno Dadá, mas a mim eles não engavavam. Afinal, Barack é bom falador, mas não é grande frasista, o que é quase a diferença entre um bom bebedor e um bêbado. Convenci McCain que Obama não era nem cristão e nem muçulmano, Obama era dadaísta.

Federal Bureau of Investigation. Washington D.C - October 14th.
14:22hs local time

Os programas avançados do FBI fizeram o resto. Dadá e Barack são incrivelmente parecidos quando rejuvenescidos a uma idade equivalente. Seriam irmãos? Filhos bastardos? Terroristas disfarçados (sugeriu Pallin)?

Estava mais do que certo de que Obama e o Beija Flor guardavam algum segredo que tinha de descobrir, com a maquina republicana aos meus serviços.


Rapidamente estava me sentindo em casa, boa gente esses republicanos. Ganhei charutos cubanos de Bush pai, acesso ao salão oval nas tarde de terça e uma linda funcionaria da NSA ao meu dispor, Agent Liu Takawara. Com suas habilidades de hacker, Liu invadiu a rede da CBF e descobriu, entre outras coisas, que o campeonato brasileiro de 1976 foi comprado em favor do internacional, por influência do Maravilha e ajuda de Jimmy Carter. No mesmo ano, em contrapartida, o centro avante colorado ajudou o democrata a derrotar Gerald Ford, com outra campanha avassaladora, nas eleíções americanas. As provas estavam ali, e só faltava escancarar a relação entre Barack e Dadá.

Withe House. Washington D.C-October 27th
21:34pm local time


Poucos dias para o início das eleições e a conexão de internet do quartel republicano era inexplicavelmente lenta. Esculachei alguns militantes e resolvi relaxar, reconhecendo que estava tudo perdido. Procurei algo agradável para ouvir, fumando um charuto, quando percebi que a resposta que buscava sempre esteve na capa de um de meus discos. Era ele, só podia.

O falecido um sete um mais famoso dos morros cariocas, Bezerra da Silva, era o pai. Um apologista das drogas, das armas, conhecido no meio do tráfico, um ícone das favelas do Rio de Janeiro, pai de Barack Obama? Seria o suficiente para convencer os eleitores a votar em McCain?


Achei que, no mínimo, poderia convencer os judeus, e fui pedir uma investigação minunciosa quando, no mesmo ato, vejo Liu correndo em minha direção com paginas soltas na mão direita, caindo ao chão conforme ela se aproximava. As evidências estavam lá, gritantes, escondidas na própria autobiografia de Obama.

Quando ele revela que o filme ítalo-brasileiro “Orfeu Negro”, de 1959 (adaptação altamente libidinosa de uma história mitológica grega ambientada em uma favela carioca na época do carnaval), mudou para sempre a vida de sua mãe, que era uma patricinha, Obama colocou a corda em torno do próprio pescoço.

Mais do que suspeito, levando em conta a acusação. O malandro partideiro seduziu a Sra. Obama por tras dos olhos do Sr. Obama e podia ser também pai de Dadá, porque não? Isso explicaria o auxílio de um dos maiores marqueteiros da história na campanha do irmão mais novo.
Saltei da poltrona, apaguei o charuto e liguei para Sarah. Precisamente às 23h00min daquela noite entregaria a ela uma pasta de conteúdo high-classified, revelando toda a verdade por trás de Barack Obama, no nosso cantinho secreto atrás do Washington Memorial.

Acordei no dia seguinte com uma dor de cabeça inexplicável. Me recordo apenas de ter ido a alguma espécie de clube e notado que Pal parecia bem mais bonita do que o de costume. Duas aspirinas e já estava de pé. Tinha de começar a articular a segunda fase do plano, uma aproximação do ranzinza do Mccain com o pouco visionário do Andrés Sanchez.

Vislumbrei parceiros poderosos e começei a procurar patrocinadores. E enquanto esperava na linha para conversar com o presidente de uma cervejaria porto riquenha, usei todos os meus conhecimentos em geografia para fazer um projeto do fielzão em escala.


O Estádio seria um tipo de arena, localizado em South Beach, uma espécie de praia grande de Miami. No pacote, havia também dois aeroportos pra Fiel, um em Key West, outro em Itaquera. Além do ginásio, o Fielzinho.


International Lands - November 5th.
Time Unknowed

As emissoras anunciaram a vitoria de Obama mais cedo do que pensei, mas não fiquei surpreso ou mesmo triste. Acho que já esperava por isso. Aquela mesquinha da Palin provavelmente nunca entregou a pasta a ninguém, pra me sacanear. Vai desmascarar a fraude Obama quando der na telha dela (alguém duvida que aquela piranha ainda vai querer assumir a Casa Branca?) e nem me chamar. Conformado, comprei um barril de cerveja para a equipe, jantei com Liu pela ultima vez e e me desliguei do partido republicano para sempre.
Só questionei meus sentimentos pouco altruístas espremido entre a quarta e a quinta fileira da classe econômica, voltando pra casa, reconhecendo que talvez fosse melhor dar uma chance aos democratas.
Imaginei, bebericando um vinho de quarta categoria, haver formas mais corretas de realizar o sonho do Fielzão.

Como estaria a festa dos simpatizantes de Obama ao redor do mundo? Voltei ao meu lugar, recostei no assento e imaginei a narração de Galvão Bueno (é amigo, o Brasil é Obama desde criancinha), mas achei que não, não chegava a tanto. Liguei meu Ipod e comecei a escutar as batidas cadenciadas, as rimas ácidas e a mensagem sagaz do velho Bezerra. Presidente caô caô. E enfim dormi.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um martelo agalopado para o futebol nordestino no cordel sem-fio

Esse projeto de martelo agalopado foi composto à luz da inspiração que os grandes repentistas nordestinos de São Paulo despejaram sobre mim recentemente, por ocasião de um projeto cinematográfico da 13 Produções cujo lançamento está previsto para o começo de 2009.

O repentismo é uma forma de arte verdadeiramente incrível. Um bom cantador repentista domina várias dezenas de formas diferentes, cada qual com seus motes, seus temas, esquemas de métrica, rima, ritmo e melodia, e pode cantar em público de improviso sobre praticamente qualquer coisa, acompanhado de sua expressiva viola.

(Inacreditavelmente, os repentistas reclamam que sua arte está se perdendo. Eles dizem estar envelhecendo sem que as novas gerações se interessem por ela).

O martelo agalopado é uma destas modalidades, inventada na passagem do século XIX para o XX pelo paraibano o Silvino Pirauá de Lima. Inspirado no martelo, formato criado no século XVII com base no verso heróico - o verso de Camões em "Os Lusíadas", por exemplo -, ele é composto por estrofes de dez versos (ou décimas) com dez sílabas cada, com as tônicas na terceira, sexta e décima sílabas e rimas no esquema ABBAACCDDC, podendo haver variações.

Pessoalmente, considero o martelo agalopado uma das modalidades mais bonitas de todo o repentismo. Cantado é ainda mais bonito, mas isso por ora vou ficar devendo.

ZP

* * *

Um martelo agalopado para o futebol nordestino no cordel sem-fio

Vou falar de um assunto muito antigo
numa forma há tempos praticada
que já foi muito longe pela estrada
e na gente encontra seu abrigo.
Peço sua atenção meu caro amigo
para um povo que é rico de tutano,
mas mistura o sagrado e o profano
desejando que o esporte seja grato:
se mandinga ganhasse campeonato
no nordeste era empate todo ano.

Na nação nordestina a bola rola,
tem na mata, no agreste e no sertão,
seja terra ou grama é nosso chão,
pé descalço ou de trava sob a sola.
Pois o jeito que o povo se consola
da incerteza inerente ao ser humano,
é um jeito que não cartesiano
e poeta não vive só de fato,
[mas] se mandinga ganhasse campeonato
no nordeste era empate todo ano.

Vi trabalho, vudu e vi padê,
vi despacho, ebó, feitiçaria,
vi macumba, serviço e bruxaria,
coisa-feita, encomenda e canjerê.
Já vi cabra que crê e que não crê
perguntando o futuro pra cigano,
santo dando chabu, pedindo abano
e por isso defendo sem recato:
se mandinga ganhasse campeonato,
no nordeste era empate todo ano.

Homenagem à luta, à tradição,
Tricolores, Dragão, Nêgo, Baru,
Galo do Seridó, Coral, Timbu,
Fortaleza e Recife têm Leão.
Fluminense da borda do sertão,
Botafogo, Fogão paraibano,
ouça bem, Tricolor corinthiano,
Dinossauro e Touro que é pato:
se mandinga ganhasse campeonato,
no nordeste era empate todo ano.

Um poeta não pode ser injusto
com a honra e memória dos heróis
que entregaram seu sangue sob os sóis,
conquistando a glória a muito custo.
Não foi santo nem orixá robusto,
que levou a esfera sobre o plano,
Foi Lampião de gibão feito de pano
e Corisco veloz, talento nato.
Se mandinga ganhasse campeonato
no nordeste era empate todo ano.

Futebol é um jogo tão perfeito,
não permite saber quem é que ganha,
a não ser se for caso de barganha
de cartola que é sempre reeleito.
Vejo nisso um tremendo desrespeito
ao poder de um povo soberano.
É o destino, senhor nosso tirano,
quem escolhe se é golaço ou mato:
se mandinga ganhasse campeonato,
No nordeste era empate todo ano.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Uma breve história não-eurocêntrica do futebol

por Tiago Marconi
(quase todo o photoshop: Caio Polesi)


O texto do companheiro de zaga Chico Garcia, publicado no início de maio, ao contrário do que o número de comentários pode dar a imaginar, teve enorme repercussão no meio acadêmico. Como era minha vez de escrever e andei muito ocupado com trabalhos e com o Corinthians para poder refletir sobre futebol de maneira lúdica, inteligente e que cative o leitor (ou os leitores, contando comigo), resolvi apenas resumir um pouco das ponderações de alguns intelectuais com muita circulação nas instituições acadêmicas do mais alto grau etílico do país.

Dez minutos após a publicação da crônica, meu telefone tocou. Do outro lado, Sean Fitzgerald. Sean é um dos muitos irlandeses que acessou o blog devido ao texto sobre o Bohemian, é historiador e professor de Football Studies na CSN (Coláiste Stiofáin Naofa, Faculdade de Educação Continuada), em Cork (inclusive o pai dele jogou nos Cork Bohemians, time que não existe mais, mas isso é outra história). Grande admirador do futebol britânico e irlandês disse estar de acordo sobre o ideal implícito do futebol, “usar a violência e extravasar a raiva em seus semelhantes, sejam eles pobres, ricos, fortes ou fracos, mas especialmente ingleses”. Ponderou, no entanto, que alguns estudos recentes no Brasil e nos Estados Unidos apontavam para uma origem no sudeste da América, provavelmente entre Sergipe e o Espírito Santo. Disse que a ligação estava saindo muito cara e o gelo estava derretendo, mas que me mandaria os contatos dos pesquisadores.

Apesar de Fitzgerald, por algum motivo, ter mandado o e-mail em irlandês, consegui pinçar os nomes e e-mails de Thomas Bogart e Jahilton Verde. Os dois trabalham juntos numa pequena missão arqueológica que reúne a Universidade do Colorado e a UFBA (Universidade Federal da Bahia), num lugar não divulgado da chamada Costa do Dendê. Assim que entrei em contato, fui convidado a ir conhecer a missão. Sem medir esforços em nome da informação precisa, peguei meu caderninho, câmera fotográfica, protetor solar, óculos escuros, sunga, chinelos e me mandei.

Bogart, estadunidense de Wray, Colorado (quase Nebraska, quase Kansas), é PhD em arqueologia e há décadas pesquisa “indícios de presença humana em regiões tropicais litorâneas de notória beleza”. Afirma ter encontrado um fóssil de coco datado de 4 mil anos em Arembepe, no verão 1970, ao lado de um esqueleto com traumatismo craniano e diversos calos ósseos no pé direito. “Em várias praias da região se encontrou esqueletos masculinos com calos nos pés, alguns deles rodeados de esqueletos femininos e pedras preciosas” – diz o cientista.

Jahilton, carioca da Tijuca, formado botânico e mestre em história, fez seu doutorado em antropologia, com o título “o hábito de se tomar água de coco – uma abordagem multidisciplinar”. Ele afirma que, ao contrário das versões amplamente difundidas “em revistas de culinária” de que o coco viria do delta do Ganges ou do Pacífico Sul, há evidências muito fortes de que ele se espalhou a partir do Equador pela costa amazônica (que na época era mangue) até atingir a costa do Nordeste, de onde foi levado para o mundo no ciclo do açúcar. Diz que descobriu por acaso um registro sobre algo parecido com o futebol – “que sempre achei um saco” – na carta do segundo enrabadiço da frota de Cabral, Tomás Pinto da Costa, a Josefina Silva, dama de companhia da infanta Maria, filha de D. Manuel I. “Costa deixa claro que Caminha esteve por demais preocupado com vergonhas altas e cerradinhas para notar muitos aspectos da cultura indígena. E além disso é literariamente superior, mas pela função, digamos, pouco nobre do autor do relato na tripulação, o documento fica escondido”.

De acordo com as pesquisas dos dois, os índios Pataxó da costa da Bahia chutavam cocos de uma praia a outra como forma de se comunicar. As condições para pesca, o avanço de uma tribo inimiga, a chegada dos portugueses, tudo era avisado dessa maneira. “Era uma forma de comunicação complexa, que exigia força e muita precisão... Um passe errado da tribo A podia ser interpretado pela tribo B como ‘casamento amanhã, rsvp’ e, enquanto a tribo B se arrumava, a tribo C vinha e a destruía... Era um mundo violento como hoje, mas a técnica individual definia os resultados. Os responsáveis pelos chutes gozavam de muito prestígio” – contou Jahilton. Ao longo do tempo, com os portugueses cada vez mais presentes na costa, os índios tinham que ser rápidos e habilidosos para chegar até a praia, fugir dos brancos, chutar e voltar para a tribo, assim se desenvolveram o elástico, o rolinho, a finta, a olhadinha para o outro lado, a comemoração girando os braços com os punhos fechados (defesa pessoal muito eficiente). Bogart defende que “depois de 3500 anos jogando livremente ou contra tribos sem cultura tática defensiva, os brasileiros tiveram que aprender a lidar com a marcação, essa sim uma invenção européia”, e completa: “em nenhum registro europeu supostamente sobre futebol se menciona a bola, são registros de batalha”. Verde explicou ainda que, antes dos contestados documentos europeus medievais, houve precursores do futebol na China, no Japão, na Grécia, no México e em Roma.

Os dois me levaram ainda para conhecer o último representante da cultura futebolística Pataxó, que tentou demonstrar sua técnica mas estava mais para Galeano do que para Gérson. Ao questioná-lo sobre seu forte sotaque hispânico, porém, o humor dos três, que até então me tratavam como um príncipe, mudou radicalmente e tive que antecipar minha viagem de volta.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Uma Breve História do Futebol

Por Chico Garcia

Lá pelos longínquos mil quinhentos e setenta e tantos, a vida era uma difícil e doce sucessão de tragédias.

Se não havia guerra, os tediosos tempos de paz eram meses em que se precisava viver intensamente, livre para experimentar todo o gosto da fruta.

E deu que, entre cada porre e cada coito, o povo inflava uma bexiga de boi no sopro, dava um nó na ponta e saia a chutá-la pela rua. Quem estivesse de posse do artefato era o alvo principal - não só das botinadas (diga-se), mas dos socos, cabeçadas e até mesmo punhaladas ou martelos aremessados a esmo.

Aos poucos, o costume foi conferindo identidade aos grupos que o praticavam. Os criadores de ovelha se achavam mais durões do que os ferreiros, que por sua vez consideravam os vendedores de cebola um bando de fracotes. Ao passo que, alguns minutos após seu início, os jogos dividiam a multidão em dois times, um querendo bater no outro.

Assim nasceu o futebol.

*

Por várias décadas, o que determinava vencedores e vencidos era a desistência de um dos lados - e na maioria das vezes os vencidos precisavam fugir a passos largos. Naturalmente, depois veio a existir o gol, mesmo que em formas ainda rudimentares.

Inflamados por rixas locais e crenças seculares (o ponto alto da temporada era a terça feira gorda, orgia de festividades que antecedia a quarta feira de cinzas), os jogos tinham um sério problema de ordem cívica: sempre acabavam em juramentos de vingança. Assim, de Henrique II a Jaime II da Escócia, ao longo de 150 anos, foram ao todo 11 proibições ao futball, praticado por nobres e camponeses, jovens e velhos; e velhos, diga-se de passagem, no alto de seus 45 anos e ainda sem lesões terminantes de guerra.

São inúmeras ordens de prisões e denuncias de tribunal que registram, por anos a fio, um duradouro confronto entre as autoridades e os amantes dos jogos de bola, considerados, por muitos aristocráticos medievais (e atuais) um bando de desordeiros, bêbados, ignorantes e briguentos.

Era uma forma de tentar manter a burguesia na linha, impedindo desordens semelhantes à “Tragédia de West Cheapside”, em 1539, iniciada numa partida entre os negociantes de pele contra os vendedores de peixe e, três dias depois, encerrada com cavaleiros e nobres se atirando à multidão com lanças em punho, enquanto um arqueiro ensandecido protegia o gol disparando flechas.

**

Por mais débeis e ilegais que fossem os diversos jogos dos quais derivam o futebol moderno (alguns deles muito parecidos com o Rugby), as pessoas o amavam, assim como o amam hoje. Por isso, suas proibições nunca foram levadas a sério - e os torneios ilegais borbulhavam ao longo de toda a Ilha da Bretanha, contando até com a participação de “equipes” formadas por oficiais da lei e generais de guerra.

Uma documentada confusão conhecida como "A Batalha de Ruyslippe", evidencia que casos de morte eram muito comuns e apeteciam ao publico, pois eram formas menos elitistas de exposição ao sangue (ou você acha que um camponês endividado tinha cavalo e armadura para participar de duelos?).

Contam os pergaminhos menos preservados, alguns com manchas de vinho, que um tal Roger “The Red” Ludford, lavrador de família camponesa com extrema competência no cultivo das batatas roxas, era o maior brucutu da idade média. Ele era tão temido que nunca houvera quem derrotasse a sua facção de coração, os proprietários rurais do condado, notórios arruaceiros beberrões que se reuniam para tomar porres na Taberna de Arthur.

Certo dia o time dos lavradores acabou por enfrentar a turma dos alfaiates malfeitores de Woxbridge, maiores bad-boys da época. Foi então que centenas de camponeses, rameiras, comerciantes, padres e até soldados aglomeraram-se aos montes, todos em volta do antigo pasto dos Suassen (o de maior capacidade de todo o condado), apenas para presenciar o confronto épico entre as duas facções.

Poucos se deram o motivo e o trabalho de imortalizar os vencedores num jogo provido de tamanha brutalidade, mas um registro de tribunal datado do mesmo ano de 1576, que ordena a prisão de cerca de meia dúzia de transgressores, encontram-se as seguintes acusações:

“Em Ruyslippe, Arthur Reynolds, lavrador e mais cinco outros pequenos proprietários rurais, todos do vilarejo, e mais Nicholas Martin, Richard Turvey e Thomas e Martin Darcy, todos alfaiates de Woxbridge, estão formalmente acusados de transgressão às leis da coroa e devem responder por briga seguida de morte, ocorrida durante uma reunião ilegal de outra centena de desordeiros desconhecidos para praticar um jogo ilícito chamado de futebol(...)

A inquirição do magistrado provincial - post morten ocorrida em Soputhemys perante o corpo de Roger Ludford – apurou com o veredicto dos jurados que Nicholas Martin e Richard Turvey estavam a jogar futebol contra as facções de Ruyslippe quando o dito Roger Ludford e um Certo Simon Maltuns, da mesma paróquia, entraram na disputa e partiram para cima de Nicholas Martin com ameaças verbais, quando esse respondeu que tudo seria decidido ali mesmo(...)

Certo momento, Roger Ludford partiu em direção ao rival que possuía a bola com a intenção de atingir ambos, jogada após a qual Nicholas Martin desferiu uma punhalada no peito de Roger Ludford com o braço direito, atingindo-o com um ferimento mortal. A vitima ainda veio a sofrer outro golpe duro de Richard Turvey, morrendo em um quarto de hora, da forma pela que Nicholas e Richard mataram desta maneira criminosa o dito Roger”.

Claro que elas nunca foram devidamente apuradas e diversas outras mortes ou atentados criminosos ocorreram misteriosamente, acometendo certos envolvidos na confusão e alguns que não tinham nada a ver com a história. Foram dias de nuvens vermelhas, lutos, duelos e disputas que até hoje fazem com que um Ludford olhe torto para qualquer Martin ou Turvey por aquelas bandas.
***

Sobre o prometido ensaio Uma Breve História do Futebol, confesso que desisti por aqui. Consta que de 1576 pra cá as regras mudaram (ou foram criadas, como prefiram), o jogo virou esporte, se profissionalizou e agora é praticado por qualquer mariquinha de todos os credos e cores.

O futebol de hoje é cheio de fair plays irritantes e firulas previsíveis. Ganhou plasticidade e beleza de encher os olhos, mas perdeu parte do ideal implícito em sua gênese: usar a violência e extravasar a raiva em seus semelhantes, sejam eles pobres, ricos, fortes ou fracos, porque a vida é curta e vence o mais esperto.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

De como as prostitutas coríntias inspiraram a rivalidade paulistana

Naqueles velhos tempos, naquele lugar estreito, o que movia a vontade dos homens era o cheiro doce de damas como Laís, a mais famosa dentre as muitas mulheres da difícil vida fácil da Antigüidade; vinha-se de muito longe comerciar e, por quê não, gozar os prazeres de zona portuária do istmo. E a cidade-estado de Corinto, onde non licet omnibus adire (onde nem todos podem ir, por ser cara), estava sempre cheia de entusiastas da primeira profissão, vivendo en passant embora intensamente ao lado - em sentido muitas vezes literal - de hedonistas de cores múltiplas e de tipos para quem a libertinagem imperava sobre os sistemas rígidos de valores.

O antigo-vendedor-de-barracas-agora-evangelista Paulo percebeu que não havia lugar na Terra mais carente de uma boa evangelizada. Aquilo era demais! Como assim, ignorar Deus e viver desse jeito?! Se um único porto na existência carecia da Palavra, esse porto era Corinto, que contribuía tanto para os quadros do inferno que o Coisa-Ruim, naqueles tempos de experimentação em que Deus ficava cada vez mais famoso (estamos falando da década de 50 d.C.), já pensava em cobrar uma tarifa por excesso de contingente - idéia que seria abandonada quando o excesso de contingente entrando no inferno começou a se mostrar uma constante histórica.

Pois Corinto era de uma tal liberalidade moral que Paulo, cuja capacidade de evangelização acabaria lhe garantindo o certificado oficial de santo entregue em mãos pelo todo-poderoso em pessoa, esse Paulo de Tarso que tinha o poder do milagre em suas mãos, fôra deliberadamente ignorado pela maior parte da população. Tentara algumas conversões e acabara voltando para Éfeso de mãos abanando, deixando em Corinto uma igreja descreditada com fiéis deseperados por orientação em um mundo bem terrenamente paradisíaco.

Mas Paulo, o apóstolo dos gentios, um Paulo muito do trabalhador, nunca desistia diante de uma obra inacabada. Frustrado pela fraqueza da Igreja na paróquia, sentou-se para escrever uma carta conclamando fidelidade e força. A "Carta de São Paulo aos Coríntios", posteriormente seguida por outra epístola, acabaria anexada à Bíblia.

Basicamente, ela diz: "Cristão de Corinto! Ao vosso redor, impera a mais ampla balada, mas não arrefecei diante disso que Deus vai premiar vosso bom comportamento. Agüentai a tentação e ficai na vossa que esses baladeiros e esportistas mercenários não perdem por esperar - vão queimar nas chamas do Tinhoso".

Há em especial uma passagem que faz referência direta aos Jogos Ístmicos, disputados todo ano em Corinto. Escreve São Paulo:

"Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.
E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível.
Pois eu assim corro, não como a coisa incerta; assim combato, não como batendo no ar.
Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado."
(Coríntios I, 9:24-27)

Com essa penada, São Paulo fundou o esporte amador e o atleta de Cristo. Voemos então uns 18 séculos para a frente na história.

Na Inglaterra vitoriana (século XIX), auge do British Empire, floresce na educação um movimento auto-denominado "cristandade muscular" (muscular christianity) que preconizava que o bom cristão, o bem educado construtor do Império, devia praticar esportes, mas sempre "buscando a coroa incorruptível" ao invés da "corruptível". O esporte, nesses berços do balípodo que foram escolas públicas católicas como Eton, Oxford e Cambridge, era visto como um meio para o desenvolvimento físico e moral do cidadão, nunca como uma disputa por dinheiro ou pela vitória por si. Isso foi denominado o "ideal coríntio do amadorismo" (the Corinthian ideal of amateurism), e foi em torno dele que se organizaram as primeiras ligas esportivas de cavalheiros na Inglaterra.

Ideal coríntio, vejam bem, por causa da carta e jamais por causa dos próprios coríntios, que não perdiam uma boa balada por nada e entravam no estádio pra ganhar. O coríntio médio era devasso à beça, tanto que São Paulo apareceu como uma espécie de moralizador-geral da parada.
O time de futebol mais amador do mundo, aquele que se orgulhava do fair play e de seu
ideal a ponto de avisar ao árbitro quando marcava ilegalmente, era o Corinthians Amateur Gentleman's Football Club - o time coríntio, fidelíssimo à epístola de Paulo.

Bonzinhos que eram os cavalheiros do Corinthians - e bons de bola, também, fique claro - quando operários e estrangeiros começaram a poder jogar por dinheiro o scratch começou a levar biaba atrás de biaba.

De um lado, nobres gentlemen que não viam nada de estranho em abordar o árbitro com um justíssimo "excuse me, Sir, but I respectfully disagree with your call - I beg you to disallow the goal I just scored" ("com licença, senhor, eu respeitosamente discordo de sua marcação - imploro para que anule o gol que acabei de fazer"), como fez o centro-avante Archie Carruthers em um jogo decisivo da FA Cup contra o Barcherster United.

Do outro, operários e estrangeiros sedentos pelos privilégios dados aos plebeus vitoriosos, motivados por salários, por "bichos" e pela possibilidade de folgas no trabalho.

Era evidente que o Corinthians altruísta ia cair em desuso.

Ao perder proeminência na Inglaterra, o que não tardou com o alvorecer do profissionalismo no futebol inglês, o time saiu em diversos tours pelo mundo para difundir o futebol e o ideal do amadorismo - como se fazia no rugby até pouco tempo atrás. Foram à África do Sul, Hungria, Escandinávia, Estados Unidos, Canadá e Brasil. Alguns de seus legados: a camisa branca do Real Madrid, a popularização do futebol na África do Sul e, é claro, o Corinthians Paulista, cujos fundadores admiraram o futebol redondo daqueles boyzinhos gentis e decidiram homenagear o alvi-negro da terra da Rainha em seu próprio clube em fundação.

A ironia da história: São Paulo escreve aos Coríntios, inspirando o Corinthians Football Club, que inspira o Corinthians Paulista, da cidade de São Paulo, que tem um clube cujo nome fôra inspirado pela homenagem a São Paulo feita em 1554, que é rival do Corinthians.

Biblicamente falando, São Paulo nunca foi muito com a cara dos corinthians, e os corinthians nunca se deram muito com São Paulo.

Futebolisticamente, menos ainda.

* * *

Alguns comentários que talvez só interessem a mim:

O Corinthians pode ser enquadrado, assim sendo, na categoria "times com nomes gregos", com vários pares mundo afora. Como escreveu o ótimo David Keyes, de San Diego, California, no ótimo Culture of Soccer (Some Team Names Are All Greek to Me), a lista engloba também Atalanta (Itália) e Sparta Rotterdam, Heracles Almelo e Ajax Amsterdam (Holanda)... Podemos acrescentar de nossa parte também o Atlas (México), o Hércules Alicante (Espanha), o Achilleas (Chipre), entre tantos outros de que não me recordo...

Outro detalhe curioso é o caminho das palavras pelo tempo e pelo espaço. O nome grego do Curíntia fez o mesmo que palavras como "mídia" e "bactéria" - veio do grego via inglês, tendendo sempre à corruptela na última flor do Lácio. "Mídia" é o plural anglicizado do grego "medium", usado no plural para falar o singular, tal qual "bactéria", que também é um plural grego que virou singular na nossa língua. Nessa passagem do grego para o inglês para o português, perdeu-se o mecanismo de flexão de número da gramática do grego, que os anlgófonos fizeram questão de preservar (medium, media; bacterium, bacteria, stadium, stadia). Daí que sempre que alguém fala em "mídias", alguma coisa estranha acontece dentro do meu estômago, mesmo que o Houaiss aceite a palavra. Em Portugal, usa-se "média". Os média, como bem convém, ó, pá!

Mais curioso ainda é o papel de cada time no futebol brasileiro atual. O São Paulo adota postura e discurso moralistas e moralizadores, de um modo que, embora nada amador, guarda algo do tom de São Paulo em sua carta aos coríntios - especialemente quando uma figura como Marco Aurélio Cunha abre a boca para falar do arqui-rival. Note-se a diferença gritante de que, ao fazer gol de mão, o São Paulo faz o velho Carruthers (assim como o próprio São Paulo, o de Tarso) se remexer no túmulo - não vi ninguém pedindo a anulação contra o pobre time verde, como o corinthiano Carruthers com certeza faria.

Já o Corinthians, eterna baderna, é o garoto devasso da história, colocando no orçamento até lingerie de secretária. Entretanto, seu modelo administrativo é um dos mais "são paulinos" dos clubes grandes do Brasil - ao menos naquilo que se refere ao amadorismo. Se o Corinthians não fosse amador em alguma coisa, não faria jus ao nome.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Pela última vez, RRRRRRRRonaaaaaldo

por Tiago Marconi

E Ronaldo conseguiu. De novo.

Onde estava Ronaldo em 2010?

Seu último drama começou em 2008, entre a vergonhosa copa de 2006 e aquela que fez a de 2006 parecer razoável, 2010. Na primeira delas, o fiasco do quadrado mágico, do time baladeiro, vaidoso e gordo de Parreira. Na segunda, o misterioso corte de Juan, Robinho e o goleirão Felipe, em cima da hora, por sugestão de Zico, e a fratura dupla de Ronaldinho Gaúcho (salvador de todos os jogos até a semi-final com gols tirados da cartola) causada por um carrinho motivador do técnico Dunga, que declararia no mesmo dia dever isso ao craque por um chapéu num Gre-Nal e querer provar que Copa do Mundo não se ganha com talento, mas com onze dungas em campo e um zangado no banco. 2010 doeu tanto que nem se discutiu muito em botecos nos últimos 4 anos. Apreciadores da seleção de 82 e defensores de de 94 concordavam logo, houve todo um resgate cultural das seleções de 90, 98 e até 2006. Frases como “Lazaroni era um estrategista”, “O que faltou à seleção foi um Taffarel” ou “Mazinho e Zinho é que era dupla de meias” (esta última dita por Fernando Calazans) pipocavam aqui e ali nas modorrentas, quentes e resignadas noites de domingo do país do futebol.

Agora em 2014 – não é preciso comentar a organização da Copa do Mundo do Brasil, comandada por Ricardo Teixeira desde a prisão federal de Cuiabá –, tudo estava estranho. Depois de um belo começo da seleção de Wanderley Luxemburgo (contratado depois de bem sucedida parceria com Teixeira no time do pavilhão 1), o time caiu de produção e se arrastou pelas oitavas, quartas e semis, mas alcançou a final depois da antológica disputa de pênaltis contra os favoritos Estados Unidos. A final dos sonhos, Brasil x Argentina. Aos 36 minutos de um 0 a 0 de tirar o fôlego, o promissor volante argentino Dieguito Simeone dá um carrinho criminoso em Pato, quebra-lhe a tíbia e o perônio e o juiz lhe dá amarelo.

Luxemburgo olha para o banco e, no meio daquela garotada, ocupando dois lugares, está o veterano camisa 9, com um penteado sem cabelos no topo da cabeça (não por vontade própria), tomando um milk shake e folheando uma Playboy (“Está vendo essa aqui? Já peguei!”). O
 treinador o chama. Ronaldo. O Fenômeno. Um dos maiores centro-avantes da história, que desde 2009 só fizera trinta e poucos gols. Ele, que disputava posição no improdutivo ataque do Flamengo. Ele, que fora convocado apenas porque Zico declarou que, se fosse o técnico, não o levaria. Com algum esforço, o craque se levanta. Ao ver sua rechonchuda silhueta saindo de trás da cobertura do banco de reservas, o Maracanã produz um urro de surpresa. Pato sai no carrinho-maca. Ronaldo entra no campo aos 38’. No camarote, o jovem Ronald, ao lado da namorada Sasha, abre um sorriso dentuço.

O jogo é o mais tenso que já se viu. Os argentinos catimbam, os brasileiros prendem a bola
excessivamente. Aos 41, Ronaldo se movimenta bem e chega até a linha lateral, onde bebe água. A bola, disputada na intermediária brasileira, cai por algum motivo em seus pés. Ele levanta a cabeça e, como um navio, parte. Cruza a linha intermediária com a bola dominada e vai ganhando velocidade, dribla todo e qualquer cabeludo de azul que aparece no caminho. Durante uns poucos segundos, ninguém no Maracanã respira, os narradores do mundo inteiro se calam, bilhões de olhos se arregalam. Ronaldo entra na área, o goleiro dá dois passos à frente. De pé esquerdo, o centro-avante golpeia violentamente a bola, que cruza em diagonal a
pequena área já consciente de seu destino: morrer na rede lateral, rente à trave. Gol do Brasil. Ronaldo cai, ninguém vê. O Maracanã sente uma alegria contida e multiplicada há 64 anos. Os argentinos não entendem nada. Quando o craque se levanta, o mundo nota abaixo de seu joelho esquerdo não haver mais nada. Parada, caída, gloriosa entre a marca do pênalti e a linha da pequena área, jaz a metade de baixo da perna esquerda de Ronaldo, de chuteira azul e meia branca, onde mais tarde seria enterrada.

Saída não se sabe de onde, uma multidão de belas mulheres parcamente vestidas, invade o gramado do Maior do Mundo, ergue Ronaldo nos ombros e desaparece pelo portão principal. O juiz encerra o jogo. Não se sabe o paradeiro de Ronaldo. Ninguém ousará perguntar pelo craque ou procurá-lo em seu merecido paraíso.

Enfim, o hexa.

Obrigado, Ronaldo.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Lembranças Incólumes de um Carnaval Imperfeito

Por Chico Garcia

Os motivos de uma tragédia são sempre bestas: não cabem numa nota de jornal, chateiam em uma crônica e poucos valem um romance.

Muito mais importantes são os fidedignos relatos da memória do povo, de todos os sambistas anônimos, andarilhos fugazes e testemunhas sóbrias que ali estavam, pois ninguém jamais vai esquecer aquele São Jorge.

O carro era uma alegoria primorosa, acabado à mão por noites inteiras. Estava pronto para entrar no desfile e ser o lúdico que deveria ter sido, não fosse tamanha a selvageria desse sábado de fevereiro.

Não houve espanto e não faltaram alertas. O conto estava escrito há tempos, com páginas e páginas permeadas pela falta de bom senso, diligência e incapacidade de prever o óbvio. O repórter apurou, o jornal publicou e o leitor já sabia muito antes disso que as torcidas organizadas se armavam até os dentes, para o que deveria ser um simples desfile de blocos carnavalescos.

A invasão dos grupos de arquibancada no sambódromo começou como um ideal de existência e terminou como estratégia de sobrevivência, povoando de agremiações fanáticas de todos os times (algumas delas repletas de bandidos armados, que acabam vindo para a avenida no meio de muita gente boa) o grupo de acesso do carnaval paulista.

E no dia 22 de Fevereiro de 2003, em pleno Anhembi, tudo o que todos previam virou realidade. A.J.J, o Sukita, presidente de uma das maiores torcidas organizados da cidade, foi preso por espancar até a morte um torcedor de uma agremiação rival; e, não obstante, também como suspeito de assassinar a tiros o carnavalesco Ruy Luciano Nogueira, de vinte e cinco anos, apenas porque o artista plástico se recusou a ver um de seus carros alegóricos destruído. Um particularmente belo, que trazia a imagem de São Jorge, o guerreiro.

Ruy foi enterrado sob revolta. As lágrimas da injustiça ainda permanecem frescas em sua lápide e ninguém jamais foi preso ou sequer julgado pelo crime hediondo que deu cabo à sua vida. Sukita responde pelo primeiro homicídio citado - uma pena de quatorze anos, com liberdade condicional em sete – por falta de provas concretas de que, conforme contam por aí, empunhou a arma usando a camisa de seu time de coração e disparou três balas contra a cabeça do carnavalesco, tão e somente porque ele trabalhava para uma torcida rival.

Há de se discutir a existência das organizadas na avenida e há de se respeitar sua tradição, dentro e fora das arquibancadas. Quem sabe não seja possível, através da igualdade do samba, criar raízes de tolerância sem que seja necessário policiar o carnaval tão ostensivamente quanto o futebol. Enquanto não se chega lá, contudo, deve-se marcar de perto a existência desses grupos nos desfiles; e torcer, torcer muito, para que outra tragédia como essa não venha a acontecer.

A espada brilhante do herói desferia o golpe final no dragão mitológico e era para ser vista por todos. Mas amanheceu escondida por um plástico negro, ao lado do corpo desfalecido de seu criador. Quando por uma simples disputa de arquibancada um carnavalesco teve de morrer protegendo sua obra, o sambódromo paulista assistiu de uma vez por todas a vitória da violência sobre a ternura; e de um bando de imbecis sobre todas as outras pessoas.

Prisioneiro de sua arte, o próprio artista foi réu no tribunal indecifrável dos destinos mundanos, culpado pela transfiguração do mundo e devoção cega ao trabalho que tanto amava. Seu veredicto, todo torto desde o início, foi que deveria deixar o mundo assim: abraçado com um filho esculpido em isopor, colorido com tinta e imortalizado na história coberto de sangue.
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agradecimentos ao parceiro de boteco Lello di Sarno, que esses dias puxou o assunto, já enterrado pelo tempo, antes de pedir outra cerveja.

sábado, 8 de março de 2008

Torcida Split

Foi um torneio estrambótico do começo ao fim. Nunca houvera nem jamais houve desde então tanta coisa incomum em 3 semanas de futebol.

A Iugoslávia estreou devagar mas voltou do intervalo rasgando, pra guardar 3 num time suíço que na próxima partida arrancaria um empate do Brasil aos helveticamente marcados 88 minutos.

O segundo jogo, amornado o calor da estréia, foi um doce 4 a 1 sobre um México que já pavimentava sua tradição de embuste, tal qual sua ex-metrópole. Era pra ter sido de zero, gol de honra de pênalti depois dos 40 não alivia nem macula. Só registra.

Estranho, tudo muito do estranho; e na partida decisiva da primeira fase da Copa de 50 a vantagem do empate era da Iugoslávia sobre o Brasil. E o jogo no Maraca.

Pois o maracanazo que nunca houve já não havia mais aos três minutos. Três minutos e os iugoslavos já tinham começado a se conformar. Mais tarde tomariam outro já pensando em caipirinha. A Copa acabara. Quinto lugar -bom! E o Brasil por aqueles tempos devia ser o país mais feliz do mundo.

* * *

Split é uma bela cidade portuária na costa da Dalmácia, atual Croácia, que fora devolvida à Iugoslávia pelos italianos derrotados na Segunda Guerra apenas quatro anos antes da Copa de 50. Em Split o Brasil deixou uma marca sem nem saber, fruto direto daquele Maracanã lotado do Brasil 2, Iugoslávia 0 que nos classificou para o Maracanazo.

Um grupo de torcedores do principal clube da cidade – o orgulhoso HNK Hajduk Split, time do General Tito que recusara um lugar na primeira divisão italiana quando sua cidade estava ocupada –, testemunha deslumbrada da derrota para o Brasil no Maracanã, decidiu fundar uma torcida agora que tudo estava calmo e o campeonato nacional voltava a ser disputado. A torcida precisava de um nome. Por quê não... torcida?

Em 28 de outubro de 1950 foi fundada oficialmente a Torcida Split. Assim mesmo: torcida, em servo-croata. Tortchida.

O Hajduk Split já ganhou sete iugoslavões, oito croatões, nove títulos da Copa da Iugoslávia e quatro da Copa da Croácia. Já jogou Copa dos Campeões e foi até as quartas. Revelou Boksic, Jarni, Kranjcar, Tudor e o perna-de-pau australiano Skoko. Quando a Croácia terminou a Copa do Mundo em terceiro lugar na França em 98 – resultado pra botar inveja em quase todo mundo –, 5 titulares eram do Hajduk Split. O clube é além disso uma das principais caras da identidade local dálmata, o único clube a ter torcedores não-croatas na antiga Iugoslávia e o favorito disparado no agora-talvez independente Kosovo.

Mas nada disso deu notoriedade à Torcida Split. Ela andou freqüentando o noticiário foi por causa de episódios de intolerância que chamaram a atenção a uma camiseta polêmica à venda em seu site na internet. A camiseta, usada com brio pelos integrantes da Torcida, traz a inscrição Hajduk Jugend, em óbvia alusão ao grupo paramilitar nazista Hitler Jugend, a “Juventude Hitlerista”. E o chefe da Torcida declarou em meio à poeira levantada pelo escândalo de racismo contra atletas negros que “a Torcida sempre foi direitista”, afirmando também que não era nazista e apenas gostava do desenho da águia.

Tirando o fato de que a Torcida Split é bem chegada em trocar sopapos com a Bad Blue Boys do NK Dinamo Zagreb, a semelhança com as brasileiras acabou ficando só no espírito dos fundadores.

Agradecimentos de novo ao Daniel Schultz, que ouviu da boca de um popular de camiseta da Torcida Split, em Split, que “sim, nossa torcida se chama Torcida”, e “não, eu não sei o que significa”.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A boemia é uma caixinha de surpresas


Certa madrugada, perambulava eu, àquela altura já sozinho e bastante alccolizado, pelas ruas paulistanas, rumo a minha casa. Para quem gosta do esporte, sabe que é preciso fazer uma escala volta e meia, para reabastecer. Uma porta me pareceu convidativa e, após tropeçar num cachorro que quase me mordeu, vi-me num legítimo pub, penumbroso e enfumaçado. Sentei-me ao balcão, pedi um pint de cerveja e saquei do bolso um cigarro. Procurava um isqueiro nos bolsos, quando uma chama apareceu à minha frente. Sem me importar com sua origem, encostei a ponta do cigarro nela, traguei, tirei o cigarro da boca e me virei para agradecer. A figura ao meu lado surpreendeu-me. Um senhor aparentando seus 70 anos, um pouco menor que meu metro e sessenta, barbas brancas desgrenhadas, rosto vermelho, metido num paletó surrado, ostentava um sorriso embriagado que revelava dentes mal cuidados e um olhar ainda mais simpático do que seu gesto de oferecer a chama de seu isqueiro de ouro.

O velhote estendeu sua mão enrugada para mim e pronunciou seu nome, Labraid Beadan, que demorei alguns minutos para entender e umas 5 repetições ao longo das horas para fixar. Mais tarde, contaria seu significado: “Falador Pequeno”, o que, depois de meia hora de quase monólogo, não seria difícil entender. Contou-me ser de Dublin e ter chegado a São Paulo em plena greve da Light, após ter vindo a Santos clandestino em um navio. Perguntei se viera fugindo da guerra de independência e ele, com um sorriso a princípio constrangido e em seguida muito brejeiro, contou que após visitar uma adega com amigos em Cork, acordou no porão de um navio, com uma ressaca de matar. Revelou ainda que um marinheiro afirmou ter tirado ele de dentro de um barril de irish cream, que misteriosamente estava seco. Recusou-se a dizer sua idade.

Começamos conversando sobre literatura irlandesa e eu, que não sou grande conhecedor dela, me impressionava com a intimidade com que Beadan tratava monstros sagrados da literatura (Jimbo Joyce, Sammy Beckett,...). Com a maestria de um professor e a intimidade de um grande mentiroso, destrinchava livros altamente complexos com frases simples e relatos pessoais (“Esse O'Connor, de Dublinenses, foi inspirado num sujeito que vivia bêbado e pagando de agitador político...”). Ao menor sinal de puxa-saquismo de minha parte, como perguntar como uma ilha de 4 milhões de habitantes tinha tantos grandes escritores, desdenhava de mim e de seu país, numa auto-ironia que deixava transparecer grande amor à terra natal. Contei-lhe que tinha bebido todo o meu dinheiro e respondeu que não me preocupase com isso. Tirou uma enorme moeda de prata da pequena bolsa que trazia e pediu mais duas, gesto que repetiria muitas e muitas vezes, para meu espanto, que não via de onde poderiam sair tantas moedas.

Perguntei-lhe se mantinha contato com a Irlanda e ele surpreendeu-me ao dizer que a cada poucos anos viaja para lá, além de acompanhar pela internet o desempenho de seu time. Quis saber que time era e ele, me olhando como se eu tivesse perguntado se ele era homem ou mulher, respondeu, “O Bohemian, ora”. Naquele momento notei que o futebol irlandês era uma incógnita, ao contrário de sua brava seleção. Meus olhos blogueiros se animaram e pedi-lhe que me contasse sobre o time e o futebol irlandês enquanto meus olhos boêmios se animaram com o nome do time e pedi mais uma cerveja ao garçom.

O Bohemian Football Club, disse-me Beadan, é o primeiro time de futebol da Irlanda, fundado em 6 de setembro de 1890 no Phoenix Park, noroeste de Dublin, por funcionários públicos, estudantes de medicina, notórios paus-d’água e um gato. Na reunião de fundação, num pub cujo nome não lembrava (“Freqüentávamos tantos” – justificou), houve polêmica sobre o nome: os funcionários públicos e estudantes queriam chamar o time de Rovers, mas a maioria, incluindo o presidente Dudley Hussey, que deu seu voto de minerva, apoiou a proposta de Frank Whitaker (pé-de-cana que depois se regenerou e ingressou na Ordem de São João de Deus) de chamá-lo Bohemian, por causa da constante deambulação dos componentes da equipe à procura de bares abertos e campos onde pudessem jogar bola.

O símbolo – mostrou-me Beadan, orgulhoso, em sua carteirinha – são os tradicionais 3 castelos que representam o zelo dos cidadão na defesa de Dublin. As cores, desde 1893, vermelho e preto. Até 1901, o clube mudou-se algumas vezes, o que lhe rendeu o apelido de The Gypsies, Os Ciganos. No verão desse ano (verão irlandês, bem entendido), o grande boêmio William John Sanderson, após noite animada num cabaré, acordou ao relento com um gato – o mesmo que fundou o time – lambendo-lhe a face num enorme descampado perto da linha do trem. Após praguejar, jurar que nunca mais voltaria a beber, levantar e dar alguns passos cambaleantes tentando entender onde estava, resolveu ir a um pub onde certamente encontraria alguns amigos de time e comunicou-lhes haver encontrado o lugar perfeito para a casa dos Bohemian. Após um brinde e algumas saideiras, foram todos para o descampado, seguindo o gato, porque Sanderson não lembrava o caminho. Ali, em setembro, nasceria o Dalymount Park. Em 1921, em decorrência da secessão entre as Irlandas, a IFA (Ireland Football Association) virou a associação de futebol do Norte e foi criada a FAI (Football Association of Ireland). Dalymount Park era o melhor campo da república e tornou-se a casa da seleção nacional até os anos 70, quando a FAI resolveu sediar os jogos num estádio de rúgbi, com maior capacidade (Lansdowne Road). Nesse enorme meio tempo, após anos de fartura, lá pelos anos 60 os Bohs enfrentaram uma enorme crise financeira por causa dos custos de iluminação do estádio. Para tentar sair do vermelho, iniciou-se em 1969, o processo de profissionalização da equipe. Nos anos 70, o time reencontrou o caminho dos títulos e depois encarou novo jejum nos anos 80 e 90 (exceto por uma Copa FAI). Beadan afirmou que ganhar ou não títulos era o de menos, que o que valia era o espírito boêmio. Perguntei-lhe o que restava desse espírito e ele, para minha surpresa, afirmou que o gato, por exemplo, conhecido como Dalymount Cat, segue acompanhando os jogos no estádio. Além disso, citou um amigo em Dublin, cujo bar, destruído por hooligans, foi reconstruído após uma vaquinha dos torcedores. Revelou ter tentado intermediar a ida de Sócrates para o clube, quando ainda estudava medicina, mas preferiu não entrar em detalhes – observando apenas, ambiguamente, que as negociações foram um porre.

Perguntei-lhe sobre a torcida. Contou-me ainda que, além de beber, os Bohs gostam de bom futebol e enchem o saco do time quando está jogando mal. Insisti para saber se havia alguma tendência política ou religiosa predominante e, pela única vez na noite, Beadan se irritou, afirmando que a divisão de seu país em dois passava ao mundo essa impressão de que tudo o que existe lá é uma eterna disputa entre católicos e protestantes. Ainda alterado, afirmou que os torcedores apenas escolhem os times que lhes parecem mais simpáticos, que tinha ódio da imagem hollywoodiana de irlandeses brigões e bêbados. Pediu outra e se acalmou. Defendeu ainda que a divisão entre norte e sul, afora toda a questão político-religiosa, se deve ao interesse inglês em não tomar mais cacetes no futebol, pois se, por exemplo, George Best fosse simplesmente irlandês e não norte-irlandês, o futebol de seu país seria muito superior ao da Inglaterra.

A essa altura, Labraid perguntou para que time eu torcia e comentou, sarcástico, que os Gypsies nunca foram rebaixados. Disse ainda que a situação atual do clube é animadora, que um novo estádio está sendo erguido e o clube se orgulha de ser propriedade integral de seus sócios, bastando, para se associar, a indicação de 2 outros sócios e aprovação na assembléia geral. Previu que em breve, com o ciclo virtuoso na economia irlandesa, alguns jogadores brasileiros poderiam vestir a camisa rubro-negra, após a saída do grande ex-vascaíno André Borges (comentário meu: quem???).

De repente, levantou-se e disse que precisava ir. Convidou-me para ir a Dailymount Park enquanto é tempo, foi até a porta, virou para trás e me chamou com um gesto. Fui até lá e ele me disse que eu podia ficar tranqüilo quanto a toda a minha bebida. Antes que eu tivesse tempo de dizer “ã?”, virou-se de novo, montou no cachorro que continuava à porta e partiu de vez, deixando para trás outro boêmio.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Muito Além do Frango de Barbosa

Descobri que a campanha de Barack Obama tem um aliado sobrenatural.

Tramando pela vitória do senador de Ilinóis está ninguém menos do que a perturbada alma do velho Barbosa, um dos grandes jogadores da história do Brasil.

Sei disso porque, recentemente, depois de ouvir um conhecido de longa data afirmar ceticamente que não há mais racismo no futebol brasileiro, visitei o terreiro de vovó Candinda e invoquei o espírito do injustiçado arqueiro da Copa de 50.

Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar, o bom Barbosa aceitou uma bola que decidiu o Mundial, na tragédia do Maracanazo, sendo então crucificado por toda a imprensa brasileira - boa parte dela discriminando-o pela cor de sua pele.

Sem negar que saiu de campo com as penas na mão, a alma “penada” do famoso goleiro possui a preta velha e saiu atirando nos jornais da época: “Barbosa vergonhoso”, chegou a publicar em negrito um jornal reacionário. “Jair covarde, desapareceu perante a marcação de Obdulio Varela”, “Bigode, jogador irresponsável” e por aí vai. Mesmo depois de apagadas atuações de Zizinho, Bauer e Juvenal no segundo tempo, os periódicos atiraram a culpa da derrota em cima dos atletas negros e mestiços.

Saí do terreiro com a cabeça voltada em escrever uma crônica sobre a falta de respeito com os craques negros daquela Seleção. Mas o altruísta espírito de Barbosa continuou a me seguir e, onde quer que eu fosse ele estava lá, tentando me convencer de que não é um mártir, que eu deveria esquecer seu exemplo de vida e me concentrar em questões atuais.

Entre uma e outra aparição, Barbosa diz estar muito entristecido por não ter defendido o chute de Ghiggia e, mais ainda por presenciar do além-túmulo as manifestações racistas que insistem em assombrar o nosso futebol.

Ele, que nasceu numa época em que a discriminação racial tinha respaldo institucional e as circunstâncias do racismo no futebol eram dignas do sul do Mississipi, anda por aí, errante, onipresente e desfrutando dos privilégios de um mundo anti-material.

Sua força vital perambula (emitindo vibrações poderosas) sempre alerta, orientando espiritualmente os militantes negros do mundo inteiro, apreciando a cultura Hip-Hop, trabalhando como ativista engajado de Obama e se relacionando com outras almas perdidas, como a de Martin Luther King, com a qual discute as diretrizes cósmicas das posições políticas.

Em sono profundo, escrevi uma centena de notas sobre o tema ensejado, provavelmente sob a influência energética de Barbosa. Hoje, mergulhado em anotações que sequer possuem os traços de minha letra, vejo-me no dever de citar, na condição de um mero instrumento, algumas das posições firmes do ex-goleiro:

“... Infelizmente, se vende a imagem de que no Brasil o preconceito está desaparecido, ou então anda definhando, agonizando tão desprestigiado que, inclusive, anda sofrendo de preconceito...”.

“... No Brasil onde todos os dirigentes são brancos, todos os narradores são brancos, todos os cronistas são brancos, todos os jornalistas, técnicos e empresários são brancos e, por coincidência, os políticos também são brancos, estou chocado por acreditarem nisso...".

“... Não se comenta a integração dos negros no futebol como se faz, por exemplo, na universidade, na representação pública ou nas novelas, sem que ninguém conteste o motivo de não haverem presidentes de clube negros, médicos ou empresários negros...”.

“... Mesmo notando um notável avanço em relação ao passado recente, os negros ainda estão, na cabeça de muita gente, circunscritos à condição de craques, pagodeiros ou favelados...”.

“... Afirmações como “goleiros negros são pouco confiáveis” e “zagueiros brancos são melhores taticamente” são mais comuns do que se pensa...”.

“... Como a política e a cartolagem brasileira funciona à base de apadrinhamento e carreirismo nepotista, não vejo um futuro onde os negros estarão disputando a presidência da república ou mesmo da CBF...”.

“Enquanto tratarmos o racismo com palavras mais elegantes como problema social ou discriminação racial e, sem qualquer espanto continuarmos a utliziar costumeiramente a palavra denegrir (rebaixar, tornar negro), podemos acreditar que ele não anda mais vivo do que nunca, nas bases mais fundamentais de nossa sociedade?”.

Não Barbosa, não podemos. E, sem que a humildade de sua alma permitisse tal comentário pelas vias utilizadas, ainda sinto-me no dever de citar um fato histórico de extrema relevância, que você sequer mencionou: Em 1993, Barbosa foi proibido de entrar na concentração da Seleção brasileira para deixar seu incentivo. Zico, por outro lado, foi recebido com honra. E qual dos dois, diga-se de passagem, “amarelou” em mais em Copas do Mundo?

É o racismo, companheiros. Ele ainda está por aí, escancarado, nas
arquibancadas nos gramados e nas cúpulas administrativas do futebol.

O espírito de Moacir Barbosa aguarda no purgatório por uma justiça tardia, para com os atletas negros do mundo inteiro, apenas para poder seguir a luz e descansar em paz.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A metacrônica futebolística [inserir título sensacionalista]

O futebol anda cada dia mais [aquele chavão sobre aquilo que o futebol cada dia mais anda].

[A primeira é um caminhão e a segunda o seu baú e se tem uma coisa que o futebol não é mais, é [isso, parafraseado]].

Mas ter passado a [hora do jogo] do [dia da semana] em [lugar onde assistiu o jogo], me fez [ver ou sentir, a depender da pretensão de objetividade] que [primeira pitada de esperança]. O [lance da semana que despertou esse fabuloso insight histórico] [adjunto adverbial de modo para dar ênfase] fez valer o [pagamento feito para ver o jogo]. Mostrou que [nota sobre a beleza única do [sinônimo ou metáfora para evitar o uso demasiado da palavra futebol]].

[Frase lírica sobre o tempo em que o futebol era o que era e que não é mais]. [Metáfora curta, imagem]. Não é mais, caro [referência ao leitor], e [expressão saída diretamente da boca do povo]. A verdade é que estamos fadados a [sentimento repetido amplamente pelos mais informados comentaristas e também pelo do café com leite da padoca, pelo do táxi e pelo do bar].
[adjunto adverbial de tempo], [isso que o futebol não é mais] pode ser visto estatisticamente, mesmo que [consideração sobre a imprevisibilidade do futebol]. [Pequena conclusão sobre os números continuarem não mentindo (é verdade. Somos nós que mentimos. Número não fala.)].

Vejam só que [chamada de interesse para a estatística da brucutulização do futebol]: [estatística com dados absolutos], e principalmente se considerarmos que [estatísticas com dados relativos]. De fato, [conclusão óbvia sobre os dados apresentados]. (Nenhuma consideração sobre a arbitrariedade da seleção dos dados. Eles foram torturados para nos dizer o que queríamos ouvir. Ok, nem sempre).

Além disso, [importante escritor que também publicava crônicas esportivas] certa vez escreveu que [exata pitada de cultura para defender o ponto em questão, que separa os meninos dos homens].

É, leitor, [frase do povo].

Entretanto, [referência ao que disse um inspirado jornalista cultíssimo amigo meu], e portanto [leve pitada de esperança, feliz subclímax].

Mas [patada nos marqueteiros de plantão!]. Um triste [sinônimos opcionais para “absurdo”, “lamentável” ou “vergonhoso”].

Por isso, leitor, [o que e como o futebol revela (o futebol é assofismático. É um caminho para todos os deuses)]. [Exaltação ao Brasil por isso].

[Novo parágrafo curto de efeito, dessa vez focando nos efeitos da globalização culminando no futebol não ser mais aquilo que o parágrafo curto de efeito anterior impactantemente declarou ele não mais ser].

A [nota sobre a fé do torcedor] faz com que [o Brasil é realmente diferente de todos os outros lugares do mundo e principalmente por causa do seu amor incondicional ao futebol].

No tempo do [time glorioso como o Brasil de 70, o Flamengo de Zico], [aquilo que era time]. A [evento da magnitude da invasão de 76], [resumo da conversa que tive ontem com um dirigente gente fina].

[Esperança, a última que morre], [leitor]! Você viu o golaço do [novo talento de 17 anos]?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Série Grandes Craques Boêmios da História – Edição de Carnaval

Caro folião,

Enquanto outros países se perguntam como a oitava economia do mundo se dá ao luxo de cinco dias ininterruptos de festa, nós brasileiros não perguntamos nada (principalmente porquês, idades ou telefones) até a quarta-feira de cinzas, quando somos tomados por uma ressaca física e moral.

Confesso que, embriagado nessa orgia, pensei em homenagear o futebol tecendo elogios rasgados aos craques foliões, que pulam carnaval e faltam ao treino apenas porque amam a folia. Poderia falar do irreverente Viola, que já desfilou em mais de vinte agremiações carnavalescas de São Paulo, sem esconder sua preferência pela escola rosácea da Vila Brasilândia. Ou então do gogó-de-ouro Paulinho Mocidade, que antes de puxar sambas inesquecíveis da Mocidade Independente de Padre Miguel atormentava os zagueiros adversários ali pertinho, vestindo a 11 do Bangu no Moça Bonita.

Mas estas são histórias que contarei em um outro momento. Hoje, não mais contagiado pelo espírito carnavalesco nacionalista - que à luz do amor nos faz acreditar que não existe melhor lugar que o Brasil -, prefiro relaxar a soberba e admitir que, assim como nós, outros países cristãos possuem belos carnavais e craques foliões, que também merecem entrar nessa lista.

Deve encerrar a carreira neste ano Russel Nigel Latapy, que nasceu em 2 de agosto de 68 em Lattaville, Port of Spain.

Para quem não o conhece, trata-se de uma das personalidades mais famosas de Trinidad e Tobago, aprazível país caribenho banhado por águas azuis translúcidas, onde a cerveja é barata e o cricket o mais popular dos esportes.

Aos 10 anos, Russel foi descoberto jogando nas praias do sul de Tobago e, desde então, chama a atenção por onde passa. Aos 18, já uma promessa, rejeitou um convite da Universidade da Flórida e foi para o Clube do Porto, onde começou sua peregrinação por times pequenos e médios da Escócia e de Portugal.

Sua vocação para a boemia se manifestou ainda na adolescência, quando freqüentava os bares de socca (ritmo local que inspirou o apelido da seleção nacional, os Socca Warriors) da orla de Port of Spain.

Assim o jovem Latapy, que demonstrava incontestável talento tanto para a música com
o para o futebol, logo se maravilhou com a efervescente noite européia. Já nos primeiros anos de Porto passou a ser conhecido pelas freqüentes noitadas, pela companhia de belas mulheres e pelos cabelos sempre estilosos. Em campo, porém, apesar das boas atuações, o craque ficou marcado por perder um pênalti contra a Sampdoria, que tirou o time português do torneio europeu.

Ao se desligar do Clube do Porto, Latapy ainda ficou alguns bons anos na terrinha, sem se destacar em nenhum clube importante. Mas se as portas da terra de Camões estavam fechadas, a Escócia recebeu Russel de braços abertos – o jogador foi a grande aposta do Hibernnian para a temporada de 1998.

Por lá, “The Litlle Magician” (carinhoso apelido de Latapy, também conhecido co
mo “Lata”) é famoso por ter protagonizado o maior escândalo da história do modesto clube, que jamais saiu em tablóide nenhum por causa de conquistas.
Numa fatídica madrugada, Russel foi preso por colidir seu carro contra uma propriedade do estado, supostamente alcoolizado, junto de um amigo de infância (Dwight Yorke, então craque do Manchester United) e de duas mulheres seminuas, uma delas casada. O caso, cheio de versões fantasiosas que circulam pela internet, repercutiu negativamente na carreira de Latapy. Fontes anônimas chegaram a afirmam que, ainda sob efeito do álcool e indagado sobre a presença de uma mulher casada no veículo, Russel respondeu desconhecer o fato de uma delas ser uma menor de idade.
Balelas sencacionalistas, que nunca foram provadas.

O fato é que, injustiçado e machucado pelas críticas pesadas, Russel ainda teve algumas fracas passagens por outros pequenos times da Liga Escocesa, antes de se retirar dos gramados e abrir uma simpática barraca de praia na Ilha da Madeira, em Portugal. E Lata teria ficado por lá, curtindo a vida e relembrando com nostalgia seus mais belos gols e dribles, se o destino não reservasse grandes planos.

Convencido por amigos, ele volta aos campos e também à seleção, pela qual tinha tido uma boa participação em 1990 - os Socca Warriors ficaram de fora daquela Copa por um empate. Aos 38 anos, fumante inveterado – sempre disse que fumava um maço de cigarros por dia sem que isso lhe prejudicasse o rendimento - e longe de suas condições ideais, Russel Latapy vestiu a camisa 10 e jogou por 23 minutos na partida contra o Paraguai, durante a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006.


Na volta ao seu país, foi homenageado no Estádio Nacional de Hasely Crawford. E após duas voltas em torno do gramado que o revelou ao mundo Russel, ofegante, foi aplaudido de pé por mais de vinte mil pessoas.

Por ser o primeiro cidadão de Trinidad e Tobago a jogar nas ligas européias – traçando um caminho depois percorrido pelo muito mais bem sucedido Dwight Yorke – Latapy tem considerável fama e goza de inúmeros privilégios em sua cidade natal, onde fundou recentemente a Russel Latapy Secondary School, apenas para crianças carentes de Port of Spain.

Para se ter uma idéia de seu prestígio pelas ruas da capital, uma conhecida piada diz que, ao chegar ao céu, um padre muito popular começou a ser apresentado às grandes personalidades locais falecidas (você não conhece nenhuma), até o momento em que encontrou Russel Latapy. Confuso, o recém-chegado mandou chamar São Pedro e afirmou:

- Mas Latapy ainda está vivo!

São Pedro, com um triunfante sorriso de canto, chamou-lhe ao canto e disse:

- Bahhh! Aquele é apenas Deus, fingindo ser Latapy.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Crônica de um jogo que não houve

Na semana do aniversário do gênio Romário, meu artigo seria dedicado aos 40 anos recém-completados de uma peça fundamental para o sucesso da seleção de 94. Mauro Silva, o jogador de menos categoria no pior meio-campo campeão do mundo que este país já produziu, é um exemplo de como deve ser entendido o futebol moderno, que pode prescindir até mesmo do futebol em nome do resultado. Vocês devem se lembrar quem dos dois citados esteve mais perto de balançar as redes italianas... Aos tetra-campeões aniversariantes, meus parabéns.

De última hora, no entanto, recebi um e-mail comovente de um amigo de longa data, o Diogo Menezes, barman existencialista e filósofo habilidoso, que publico na íntegra, mais pela pertinência e atualidade do tema “taça das bolinhas” e por apreço a seu relato pessoal do que por concordar com ele. Curiosa é a presença insistente de Mauro Silva nos textos, nos marcando de perto...



“Caro Tiago,

Seu e-mail provocador a respeito do Corinthians x Guarani da última quinta me lembrou outros tempos, em que tanto eu como você tínhamos motivos para sorrir, em vez de nos provocar mútua e pateticamente desde as divisões inferiores do decadente futebol brasileiro.

Lembrei daquelas finais do Paulistão de 88, do gol inesquecível do Neto e do surgimento do Viola, que apareceu dando o título a vocês. De lembrança em lembrança, eu acabei lembrando dos 20 anos de uma data que aparentemente passou desapercebida para todo mundo, menos para mim. O dia 24 de janeiro de 1988. Eu, com meus 10 anos, era sócio e um entusiasmado torcedor do forte Guarani, que já não tinha Careca, mas tinha Evair, além de Giba, Ricardo Rocha, Boiadeiro, João Paulo, o jovem Mauro Silva no banco e voltaria a ter Neto, pouco tempo depois.

Apesar da decepção com a roubalheira da final de 86 (disputada em 87), acompanhei o Bugre por todo o ano de 1987, no Paulista, na Libertadores (em que, de certa maneira, nos vingamos, vencendo o São Paulo aqui e empatando no Morumbi) e, enfim, no Brasileiro. Meu pai era fanático e íamos a rigorosamente todo jogo no Brinco.

Eu, porém, sabia que não existia apenas o Guarani e, já como hoje, era um admirador do futebol. Quando os compromissos com meu time permitiam, assistia na TV aos jogos dos outros. Era impossível não se entusiasmar com o time de Renato Gaúcho, Bebeto, Jorginho e, ele, Zico. Ele, que desperdiçara o pênalti do jogo na Copa anterior, e voltara a desfilar sua classe pelos gramados brasileiros.

Quando, ainda no início de dezembro, o juiz apitou o fim do de Guarani 1x0 Atlético Paranaense, depois de mais de 80 minutos de sofrimento, eu explodi de alegria e torci muito para que o Flamengo entrasse no quadrangular. Classificados Flamengo e Inter no módulo Amarelo, sempre com a cabeça no quadrangular, acompanhei na TV a histórica disputa de pênaltis com o Sport (11x11!!!) e esfreguei minhas mãos em júbilo esperando o dia em que meu Guarani mediria forças com o Flamengo de Zico, que no mesmo momento despachava o Inter, sagrando-se campeão do Módulo Amarelo.

No dia seguinte (eu não falava em outra coisa), meu pai, preocupado, veio contar-me que o Flamengo e o Internacional haviam abandonado a disputa e o Flamengo já se considerava campeão brasileiro e quadrangular seria reduzido a um jogo de ida e outro de volta com o Sport. “Como pode haver um campeão sem ter enfrentado o time mais forte?” – pensava eu. Era a segunda final que nos roubavam – e desta vez nem nos deixaram jogar! Fiquei com raiva do futebol e virei o ano pensando em outras coisas. Passadas poucas semanas, já era um torcedor de novo, jogava minha bola e freqüentava meu clube do coração.

No domigo 24 de janeiro de 1988, lembro de acordar cedo com a idéia fixa de ver o jogo com o Flamengo. No fim da manhã, toda a família foi para o clube. Perto das 17h, enquanto todos estavam na beira da piscina, já bem cansados, fui sozinho até o estádio tristemente vazio, fechei os olhos, ouvi a torcida bugrina cantar forte e vi o Guarani enfiar 2 a 0, um de João Paulo e outro de Evair, no covarde time do Flamengo. Zico, além de perder um pênalti, teve atuação apagada graças à boa marcação de Tosim. E o quadrangular final continuou em aberto. Fui embora com o gosto da vitória e deixando naquele estádio uma parte de minha infância. Até fui nos jogos posteriores em que perdemos o título para os recifenses. Mas, na verdade, para mim, não há 2 campeões de 1987, nem um. Para mim, aquele campeonato não acabou.


Grande abraço,

Diogo”

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tecnologia argentina para exportación

A hincha do Boca Juniors está para as torcidas de futebol como Harvard para o mundo acadêmico, afirmou em 2006 o chefe da principal barra boquense. E com isso a Argentina, que já viveu tempos melhores, está criando divisas em dólares com um novo serviço especializado voltado ao mercado externo: consultoria para transferência de tecnologia organizacional para torcidas de futebol.

Isso inclui cantos, táticas de brigas, métodos de extorsão de dirigentes e jogadores, recomendações para superfaturamento do preço de ingressos e dicas para a cobrança de propinas de ambulantes das proximidades dos estádios.

¿Bueno, eh?

Segundo reportagem do diário bonaerense Olé, os contratantes mais bem sucedidos até então tinham sido do Pumas, do Tigres e do América, no México, e das equipes de Cali, na Colômbia. Sabe-se também dos efeitos dos trabalhos dos argentinos em outros países da América Central – todos estes lugares que, invariavelmente, observaram um surto de crescimento no número e na brutalidade de episódios de violência no futebol nos últimos anos, em que o entusiasta do esporte vem perdendo lugar para o fanático sectarista nas arquibancadas.

Mas não é só a consultoria in-house que está gerando receitas: os hinchas-expert do Boca têm recebido em Buenos Aires interessados de ultras do mundo inteiro. A Espanha desponta como o melhor mercado mas todo o mundo hispanófono se interessa, do Chile ao México.

Interessante observar o lado mundanamente feio de algo cercado de tanta mística e valor cultural. Mesmo assim a insípida descrição do business case, embora adequada, é insuficiente.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano disse bonito e as torcidas do Flamengo e do Corinthians (digamos, do Boca e do River) inteiras sabem que não é correto atribuir a violência ao futebol; ela não vem do futebol, aparece no futebol. Na Grande Buenos Aires não é diferente e nestes países e lugares receptores de cultura por dizer tradicional de futebol também não. Novidade é o movimento no sentido da globalização do saber acumulado cultural local, agora transformado em pacote e mercantilizado ao sabor do freguês, nesse fenômeno que vem despontando a partir de várias torcidas transplatinas.

Daí que não cabe atribuir o selo “hecho en Argentina” ao surto recente de pancadaria no futebol latino-americano tanto quanto reconhecer que tudo o que ganhasse espaço em termos de cultura futebolística no mundo hispanófono – e mesmo fora dele – teria um dedo do modo de ser argentino. Esse torcer é a quintessência da experiência do entusiasta, é o apoio à equipe na sua forma mais dramaticamente eficaz. E o Boca é a corporificação máxima deste espírito, materializado no ar que paira La Boca, em sua disposição urbana e na arquitetura do estádio, e transformado em som e vibração, em pressão tangível, pela hinchada que canta bem e sem parar.

A verdade é que o Boca Juniors e o futebol argentino exercem uma influência muito maior no jeito de torcer mundo afora do que aquela sistematizada por seus mestres remunerados – papel que já coube ao Brasil, um assunto a que voltaremos futuramente. Buenos Aires reuniu condições propícias para o florescimento de uma rica cultura de torcidas organizadas, das quais a mais importante possivelmente é o fato de o conurbado bonaerense ter a maior “densidade futebolístico-espacial” do mundo. O papel da familiaridade lingüística com o restante da América Latina nesse processo também não pode ser desprezado.

Verdade é que o próprio Brasil sente essa energia. A geral do Grêmio, a mais castelhana das torcidas brasileiras, é a banda louca que corre os torcedores do Internacional, bebe vinho e fica borracha, canta músicas diretamente traduzidas das barras do boca como os típicos “dale-ôs” do original dale bo do Boca, e comemora gols com avalanchas. Quem já viu essa torcida sabe que o Grêmio tem a maior vantagem de jogar em casa do Brasil. Pressão pura.

Os “dale-ôs”, diga-se, estão cada vez mais comuns em cada vez mais torcidas pelo país, incluindo pelo menos a do Corinthians, argentinófila desde Carlitos.

Indepentemente da (má) influência que os líderes barrabravas argentinos venham exercendo mundo afora, é certo que se no mundo ideal os goleiros são alemães, os zagueiros italianos e os meio-campistas e atacantes brasileiros, no mundo ideal a torcida – como o churrasco após o jogo – vem da Argentina.